domingo, julho 19, 2009

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1808 de Laurentino Gomes (2007)

1808

“Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.”

Laurentino Gomes, jornalista brasileiro e autor deste bestseller, resumiu dez anos de investigação jornalística, apoiada em trabalhos de dezenas de historiadores e bibliófilos, livros, fontes impressas e electrónicas, correspondências e relatos, de um acontecimento único na história de dois territórios separados por um oceano, mas unidos pelo destino de um pequeno país, com pouco mais de 3 milhões de habitantes, e dono de um império colonial espalhado por três continentes.

A primazia deste livro está, precisamente, nos relatos e na contextualização histórica de um período que transformou uma colónia num país independente e numa potência mundial; na descrição da vida e das personagens burlescas da corte portuguesa, na chegada a uma terra estranha – terra de escravos, contrabandistas e gente sem refinamento. As cartas do arquivista real Luiz Joaquim dos Santos Marrocos são a fonte mais preciosa deste livro sobre a fuga dos reis, a vida da colónia e das personagens burlescas que constituíam a corte portuguesa, assim como a transformação que se operou nas gentes e naquele território dos trópicos, durante os 13 anos da presença da família real portuguesa.

Em 1807, Portugal já era um dos países mais atrasados da Europa, em vários aspectos: a metrópole vivia parasitária das suas colónias, assente numa economia de consumo e num mercado extractivista e mercantilista; a igreja católica tinha um peso decisivo na vida política e social – Portugal foi o último país a abolir os autos a Inquisição –, as novas ideias libertárias e reformas políticas não encontravam espaço num regime de monarquia absoluta, já caduco na Europa. Portugal foi também o último país europeu a abolir o tráfego de escravos e a assegurar a liberdade de expressão e os direitos individuais. Ao invés, a Europa, já vivia no fervor da Revolução Industrial, na explosão da tecnologia e das artes novas, na busca das grandes descobertas intelectuais, que acabaram por culminar, por exemplo, em descobertas para a ciência ainda hoje de enorme relevância.

joaocarlota Retrato de D. João VI e D. Carlota Joaquina de Manuel Dias de Oliveira

Portugal neste período era governado por D.João VI, príncipe regente, em substituição de sua mãe, D. Maria I – a primeira mulher a ocupar  o trono português -, uma pobre louca que vivia encarcerada no Palácio de Queluz, rodeada de fervores religiosos. D. José, seu filho primogénito e herdeiro do trono, morreu anos antes de varíola graças à proibição de sua mãe aos médicos de lhe aplicar uma vacina, uma vez que esta achava que a decisão entre a vida e a morte cabia apenas a Deus. D. Maria I foi também a principal responsável pela interrupção do único e breve período de reformas políticas, sociais e estruturais, levadas a cabo pelo ministro todo-poderoso de seu pai, o marquês de Pombal, marginalizado pela rainha e obrigado a manter desta uma distância mínima de 110 quilómetros.

Nesta altura, já o mundo ocidental tinha um novo senhor: Napoleão Bonaparte, autoproclamado imperador de França, depois da Revolução Francesa. Um pequeno sujeito que subjugou reis, rainhas, príncipes e duques, dinastias de séculos, substituindo-os por membros da sua própria família, desde a Prússia, até a Escandinávia e o pontificado romano. Napoleão tinha os exércitos mais rápidos e ágeis da Europa, facilmente mobilizados e sustentados pela sua nova França -industrial e com inovadores técnicas agrícolas, que permitiram, em poucas décadas, uma explosão demográfica e uma estabilidade fundamental para as importantes reformas Napoleónicas (o saneamento financeiro de uma França arruinado por uma monarquia ultra-despesista, a adopção do sistema métrico e o código napoleónico, ainda hoje a base do sistema jurídico francês e de muitos outros países).

Embarque de D.joãoEmbarque de D. João, príncipe regente de Portugal, para o Brasil, em 27 de Novembro de 1807 de Nicolas Louis Albert Delerive.

Foi o terror pelo exército de Napoleão que levou D.João VI, e toda a corte portuguesa, a realizar o inédito – abandonar o seu país e rumar ao trópicos, numa fuga à pressa, sob protecção Inglesa, o antigo aliado. Este acontecimento único, revelou a fraqueza de um príncipe fraco e medroso, tanto mais, que o exército comando pelo general Junot, aquando da sua entrada em Lisboa, ainda com os navios que levavam a corte para o Brasil à vista, era já um amontoado de maltrapilhos e famintos, desgastados pela dureza da marcha forçada e das emboscadas armadas pela débil e espontânea resistência portuguesa. D. João VI podia facilmente ter vencido a invasão – se tivesse tido coragem. Mas, a história está cheia de acasos, fazendo-se mesmo sem se dar conta disso. Este movimento, surpreendeu o próprio Napoleão, que sobre D. João VI escreveu nas suas memórias: “Foi o único que me enganou.”

D. João VI, sem querer, acabou por ser decisivo na construção, na América do Sul, de um império e de uma nacionalidade, transformando uma colónia amorfa, num país gigantesco e unido, ao contrário do que aconteceu com os seus vizinhos da América espanhola. Laurentino Gomes dá-nos todos os detalhes dos acontecimentos, da vida, dos modos e da importância do confronto de dois mundos - um passado, velho e ultrapassado e o novo, da prosperidade e da transformação, ajudando-nos a perceber o porquê de, mais tarde, D.Pedro I do Brasil, filho de D. João VI, libertasse o famoso grito do Ipiranga.

cordpedro 001A coroação de D. Pedro I do Brasil de Debret.

1 comentários:

Nimpo disse...

Interessante trabalho bibliográfico desse senhor jornalista