domingo, novembro 30, 2008

No tempo da "Inocência Ditadura"!

Quem é que não ouviu falar do caso Calabote do final da década de 50? Do árbitro que deu 10 minutos de descontos com o intuito de ver o Benfica marcar o 8º golo, o do título? Do árbitro que marcou num jogo com 8 golos, 5 penaltys para os da casa?

Pois é, trago-vos hoje meus amigos uma prenda: os artigos dos principais jornais desportivos (gentilmente cedidos por um amigo) relativos ao jogo apitado pelo senhor "Inocêncio Calabote", que acabou por ditar o 2º lugar no campeonato para o Benfica, tendo o título ficado na posse dos azuis e brancos que venceram no mesmo dia em Torres Novas, os locais por 3-0, tendo acabado o jogo contra 9 (1º homem do conjunto de Torres Novas foi expulso aos 20min da 2ª parte e o segundo depois do 2º golo do Porto, imagine-se, por pontapear a bola de dentro da baliza) e sobretudo debaixo de veementes protestos dos jogadores locais! Jogo apitado pelo senhor Francisco Guiomar que de Inocêncio não tinha nada!
-----a Bola-----

---Manual Desportivo---

-----Record-----


Vê como é o teu corpo!

Venho hoje, e depois de algum tempo de ausência neste inspirador blogue dar uma pequena sugestão. Provavelmente já conhecem este site que visitei e gostei imenso. Desde a apresentação do site, conceito... É o Visible Body.


Este Site permite ao utilizador uma experiência nova muito interessante pois é possível ver a anatomia humana a 3 dimensões de uma forma interactiva. O utilizador pode ver o corpo segundo diferentes pontos de vista( sistema digestivo, sistema circulatório, aproximar, afastar, muitas outras coisas). Apenas é necessário instalar uma pequena aplicação para se poder visualizar as aplicações 3D, isto para um demo. Para ver na totalidade é necessário uma inscrição, esta é grátis. Agora vai poder explorar de forma totalmente nova e inovadora o corpo Humano!


video

sexta-feira, novembro 28, 2008

Aproveitando a onda e desanuviando um pouco as atenções do já moribundo Barba Ruiva e dos comentários a que teve sujeito depois de mais essa gostosa review do Nimpo, sugiro agora que todos aqueles que se gladiaram no referido possam seguir com os seus ditos após a minha singela sugestão cinematográfica que não resisti a partilhar com vocês, seja pelo pouco espaço de tempo que mediou entre o meu visionamento e a altura em que aqui escrevo, seja pela oportunidade sugerida pelo meu ímpeto em partilhar o que se afigurou até hoje como um dos filme que mais me tocou na alma.

Ivanovo detstvo de Andrei Tarkovsky (1962)
Género: Drama

Ivanovo detstvo, ou a “Infância de Ivan” é a adaptação do realizador russo Andrei Tarkovsky de um pequeno conto baseado em factos reais do escritor russo Vladimir Bogomolov. Aclamado pela crítica de então, esquecido pelo grande público, logrou arrebatar o Leão de Ouro no festival de Veneza em 1962, sendo considerado por muitos o melhor relato de guerra que existe e, na minha opinião, é o com todo o mérito.

Este filme é todo ele uma desoladora e angustiante viagem à história de Ivan um rapazinho de 12 anos de idade que vê os seus pais e irmã mortos às mãos das tropas nazis, tornando-se depois um dos muitos jovens soviéticos usados na segunda guerra mundial, neste caso como batedor e elemento intrusivo nas hostes alemãs.

O pequeno Ivan é uma das personagens mais extraordinárias da história do cinema, principalmente tendo em conta que se trata de uma criança de 12 anos que consegue imprimir uma carga dramática sublime a uma personagem amargurada e devastada pelo sofrimento da perda da sua família. Movido pelo ódio de vingança, enceta um martírio interior em busca da justiça às mãos do seu próprio país, criando uma individualidade, maturidade, postura e linguagem mais adulta do que a dos próprios adultos em todo o filme , usando-o como que se de um abrigo protector fosse para a sua inocência escondida.

Neste filme, a rivalizar com o pequeno Ivan, só mesmo o próprio Tarkovsky e a forma como nos estampa toda a acção. As alternâncias entre os sonhos idílicos de infância, os pesadelos de vingança e as cenas de guerra e devastação, premeiam os intentos de Tarkovsky na forma como explora de forma única os efeitos da guerra na mente e no espírito do ser humano.

Este é o exemplo em que de uma história simples por vezes se consegue emergir um grande filme, sem muitos efeitos visuais, ornamentos artísticos ou técnicos, consegue-nos mostrar os maiores horrores que a guerra leva a alcançar sem exibir uma única bomba, glória ou majestosas batalhas, só o deleite visual de um cenário extinguido de vida e a compassiva existência de uma criança.



"I attempted to analyze the condition of a person who is being affected by war. When personality is disintegrating, then we have the collapse of the logical development, especially when we are dealing with the personality of a child. I always conceptualized Ivan as a destroyed personality pushed by the war from the normal axis of development."
Andrei Tarkovsky

terça-feira, novembro 25, 2008

Akahige de Akira Kurosawa (1965)
Género:  Drama

A viagem deste post cinéfilo semanal (e desculpem o atraso) é até à decada de 60, a uma pequena localidade do Japão rural. Leva-nos à história de um jovem médico recém-licenciado, consumido pela prepotência, vaidade e individualismo, próprios da sua formação urbana centrada na patologia. Este, contra a sua vontade, é destacado para o hospital de uma localidade do interior do Japão, humilde e de parcos recursos.


Chegado ao hospital, fica sob responsabilidade do dr. Niide, conhecido por Barba Ruiva (Akahige) pela peculiar cor da sua barba. Este, quando o perscruta, apercebe-se de algo de misterioso no jovem médico e interessa-se por ele, apesar de todo o desprezo inicial. A partir daí, a narrativa vai evoluir centrando-se fundamentalmente na condição e sofrimento humanos, em várias pequenas e intrigantes histórias de vida de vários doentes e personagens que vão surgindo no hospital, retrato de vidas assentes numa miséria extrema. Existe um certo feeling Dostoievskiano ao longo da película. Akira Kurosawa conferiu ao filme um humanismo abrangente e tangível, romantizando o idealismo do sofrimento humano como uma causa preponderante para a doença e morte.

O jovem médico vai percorrendo todas estas histórias unindo-se cada vez mais ao sofrimento e miséria daquele povo, base de partida para uma profunda transformação interior. Resta saber se este humanismo o marcará de tal forma que abdique de todas as suas ambições, pessoais e materiais, para abraçar a verdadeira felicidade que há tão pouco acabou por descobrir - o amor infinito ao próximo. Um filme notável que especialmente todos os estudantes de medicina deveriam ver.

"The pain and loneliness of death frighten me. But Dr. Niide looks at it differently. He looks into their hearts as well as their bodies."

domingo, novembro 23, 2008

Em contra-resposta a um post colocado na Tretavisão, digam lá se os porcos não tem noções de higiene, contrariando também os sinónimos encontrados para o seu nome, ou pelo menos, como eles aparecem no dicionário.





Fui, raciocinar.

sábado, novembro 22, 2008

Considerações neo-epopeicas sobre a Crise

(clicar para ver)

terça-feira, novembro 18, 2008



Melhor série de todos os tempos?


Acabei há uns dias de ver a série que muitos referem como sendo a melhor de sempre. 82 prémios, incluindo 5 globos de ouro, e 211 nomeações falam quase por si só. O que tem esta série de tão especial?

Primeiro que tudo, o seu realismo. A acção desenrola-se tal e qual como se fosse um documentário de uma família, com as suas rotinas, os seus bons momentos, os maus momentos... Tudo isto cria no espectador a ilusão de ser mais um elemento da história. À medida que a série avança, vamos assistindo ao evoluir de várias personagens, o crescimento de uns, o aparecimento de outros e a morte de vários (e morrem muitos personagens importantes). Um enredo em que as acções podem ou não ter consequências, tal como a vida real - imprevisível. A história não se centra apenas na perspectiva temática da máfia italo-americana. Esta é a base, o ponto de partida para um estudo profundo às dilacerantes repercussões interiores vividas pelos seus intervenientes, especialmente o personagem principal, Tony Soprano.


Ah, Tony Soprano! Este é, a meu ver, um dos personagens mais ricos e intrigantes da história da televisão. Um personagem que vive intensamente para duas famílias - a mulher e os seus filhos, e a máfia. Um criminoso rude, implacável, que apesar de tudo cativa pela sua aparente justeza humana, o seu charme e simpatia. A sua perdição pelo sexo feminino. James Gandolfini foi brilhante e convincente na interpretação do personagem. O palco principal da série é, verdadeiramente, o gabinete onde se reúne com a sua psiquiatra, praticamente todos os episódios. Aí, invocado e dissecado pela sua psiquiatra ao longo de dezenas e dezenas de episódios, o seu subconsciente emerge: a sua relação atribulada e infeliz com a mãe, certos marcantes eventos da sua infância, a sua depressão crónica, os seus ataques de pânico, os seus perturbadores pesadelos (ao longo da série são retratados vários) - um caos de arame farpado mental que explica, muitas vezes, as suas acções precipitadas. Mas outros personagens tão peculiares como marcantes vão entrecruzando o seu caminho, como a mãe de Tony Soprano, Ralf Cifaretto, Paulie Gualtieri ou Junior Soprano. 

A série é tão e somente, muito além de uma história de gangs ou da máfia, uma celebração da vida, a vida com os seus múltiplos problemas e escolhas difíceis, com as suas dramáticas consequências... Muitas vezes não nos resta mais do que optar entre um mal e um mal menor. Cabe a cada um reflectir e decidir, no fim, se Tony Soprano é um herói, vilão ou vítima do sistema implacável que o fabricou. Tudo pode acontecer, e o final da série, controverso e aparentemente desprovido de nexo, é, no seu simbologismo, tão original como aterrador e marcante, valorizando a inteligência de toda a série, como uma cereja no topo de um bolo - Sopranos.

"O criminoso usa a perspicácia para justificar actos hediondos. A terapia tem potencial para não-criminosos. Para os criminosos, torna-se mais uma operação criminosa" in A Personalidade Criminosa, Samuel Yochelson (Psiquiatra Americano).

domingo, novembro 16, 2008



Inland Empire de David Lynch (2006)
Género:  Mistério / Drama / Crime / Terror

Desta vez, trago-vos mais um filme de David Lynch, "Inland Empire". Este é o seu derradeiro filme. Totalmente filmado em câmara digital, este é o filme que Lynch sempre ambicionou fazer, sob um ponto de vista artístico. É, talvez, o filme mais bizarro do realizador, ultrapassando mesmo "Mulholland Drive". A sua mensagem e linha condutora parecem indecifráveis e constituem um dos maiores desafios à actual elite cultural cinematográfica. Na verdade, poderá mesmo suceder o filme não ter um fio condutor ou uma explicação lógica global, por si mesmo.


Poder-se-á dizer que o filme é, nos seus momentos iniciais, uma narrativa que expõe a sua história de base  - um "remake" de um filme polaco que nunca fora acabado, por certos eventos estranhos em seu redor que levaram à morte dos dois protagonistas. O restante, o grosso do filme, um autêntico pesadelo caótico parecendo surgir das trevas de uma mente esquizofrénica. A acção parece não obedecer a um princípio racional. Nikki, a heroina do filme, parece cada vez mais afundada numa maldição hipnótica, e a sua realidade cada vez mais fundida com a da personagem que encarna no "remake" polaco, com as consequências tenebrosas que isso implica. Passado e futuro, realidade e ficção, são misturados num caos sucessivo de cenas aparentemente desconexas e variadas, que a levam a viver episódios do próprio filme polaco, do filme que encarna, e da sua realidade cada vez mais confusa e apoteótica, elicitando todos os seus demónios interiores. Muitos pequenos detalhes conspícuos relacionam as cenas umas com as outras. Diálogos estranhos, pernonagens estranhos e enigmáticos e ambientes surreais e perturbadores sucedem-se num tumulto caótico à medida que a intriga avança. 


O segredo está em não procurar encontrar uma explicação lógica para todos os pormenores. O filme é pura e simplesmente um grande pesadelo, e que pesadelo! Todos os elementos do subconsciente perturbado da personagem emergem numa catarse de sentimentos, sejam eles de terror, raiva, medo, sofrimento ou contemplação. O filme passa por todos eles de forma exímia, muito graças ao talento da actriz Laura Dern, absolutamente versátil e eficaz na interpretação das sucessivas e variadas dimensões da sua personagem, tornando tudo esmagadoramente verdadeiro, apesar de estranho e impossível. 

Ao nível de realização, a utilização de câmara digital conferiu a Lynch a liberdade e originalidade de utilizar maioritariamente planos pouco usuais. A focagem das personagens muito próxima da cara, no limite de focagem, torna tudo mais próximo e intenso, exponenciando o surrealismo do filme. Por outro lado, a portabilidade da câmara digital possibilitou o seguimento muito próximo de certos gestos aparentemente não importantes para as cenas, mas que aumentam a tensão do momento, como se lá estivéssemos, absortos nesses gestos banais como encher uma chávena de café, como um mecanismo de escape perante a estranheza de tudo o que se está a passar. 


Obviamente que o filme não será para todos, tal como um quadro de Picasso não poderá ser perceptível por todos. Este é um filme que não obedece a regras, é pura e simplesmente um esgar de génio e liberdade artística. Como referiu Gustavo Marquês Van Prog "é bom saber ainda existirem realizadores que se preocupam em trazer algo de novo, de diferente". Mais que preso a uma simples história, este filme encarna a arte cinematográfica como uma pintura abstracta, base para uma experiência incalculável sob domínios e sentimentos superiores.

"Como vento a ecoar nos túneis da mente"

sexta-feira, novembro 14, 2008

Este mês, mais uma vez, atropelei o princípio que eu próprio estabeleci, de responder às vossas perguntas deixadas no nosso correio electrónico, abordando uma questão que me chegou aos ouvidos e, que por força da sua pertinência intelectual e premente esclarecimento, impôs-se por ela mesma.

Serão os animais* seres racionais, como homem?

*Diz-se por animais todos os mamíferos que não o homem, peixes, molusco, insectos, aves e, o Eucinéfalo.

Os mais incautos dirão que a resposta a essa pergunta é dada logo nos primeiros anos de escolaridade, cimentando-se rapidamente como um aforismo no nosso senso comum. Há quem não concorde! E quanto eu estimo aqueles que por vários motivos não concordam. Afiguram-se geralmente como indivíduos hábeis, bons a depreender, que não prescindem do seu raciocínio, logo, à partida, seres racionais.

Começo por dispensar a minha opinião, socorrendo-me de literatura adequada para o efeito, de forma a lograr-nos uma conclusão aceitável.

Racional in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora 2006: adj2gén. 1 que possui a faculdade de raciocinar; que faz uso da razão; 2 que se baseia na razão e na lógica; 3 conforme à razão; razoável; 4 que revela bom senso; 5 FILOSOFIA que se deduz pelo raciocínio. s.m. ser pensante; o ser humano… etc

Eu fico esclarecido com a significação de racional, aqui, claramente atribuída ao ser humano, mas aceito o cepticismo quanto às capacidades dos senhores da Porto Editora em dominarem uma matéria tão ampla. O equívoco é possível. Sigamos para a definição de razão:

Razão: s.f. 1 faculdade de raciocinar, de compreender, de estabelecer relações lógicas; 2 faculdade de julgar ou avaliar; 3 justiça; rectidão; equidade; 4 bom senso; juízo sensato; 5 causa; motivo; argumento; justificação; 6 participação; notícia; 7 FILOSOFIA faculdade de raciocinar discursivamente, de combinar conceitos e proposições; 8 MATEMÁTICA relação entre duas quantidades; etc…

Eu nunca vi um porco a andar de bicicleta, mas também nunca tinha ouvido ninguém designar um caracol como: animal racional; nunca da mesma forma me ocorreu que estes pudessem usar uma qualquer forma de raciocínio, para que desse modo se arrastarem na sua gosma para debaixo de um vaso de dia e só saírem de lá à noite, a isto chamava instinto, impulso instantâneo, automático, definido pelo ambiente a que está exposto. Já quanto à espécime Eucinéfalo não temos dúvidas quanto ao seu ser, pensa que tem mais razão do que na verdade tem.

No fundo, estaremos perante um debate de interpretação de palavras, mas quanto a isso aceita-se com o melhor dos agrados todas as opiniões estrambóticas que possam ter.


Dê-se tempo ao tempo.
Uma ínfima parte desta matéria
 rude, inerte, bruta, que aqui vêm, 
que há tão pouco não era mais 
que um punhado vago de energia,
formar-á, um dia, o ser Humano.

Milhões e milhões de anos necessários
Para produzir este novo estado.
Matéria com poder de escapar e alterar 
o desígnio natural das coisas,
ainda que a um limitado nível.
Matéria que pensa sobre si mesma.

Parece impossível. 
Mas aconteceu, ou não existimos?

quinta-feira, novembro 13, 2008

Figura 1. A evolução humana e o novo estado de Homo Eucinefilis, dado a conhecer à comunidade científica muito recentemente num blog português. Acredita-se existir já vários exemplares deste Homo Eucinefilis, em constante peregrinação e procriação por todo o mundo.

terça-feira, novembro 11, 2008

E se o desafio for mudar as regras do jogo?


E se as palavras desafiarem as tonalidades da tua mente?
E se um jogo te levar num percurso descentralizado?
Ofereço-te umas pistas… Lê e pinta o teu quadro de pensamento =)


Permite-me que te faça um convite...
Permite-te cada ânsia de fazer, de cometer, de realizar que sem perceberes te toca o pensamento e te questiona a tua passividade,
Permite-te cada sonoridade de alma que absorve o teu querer, o teu saber,
Deixa-te levar num jogo de cores, pinta a tua personalidade...
E se o desafio for mudar as regras do jogo?
E se o cenário te introduzir uma linguagem que não entendes?
E se os objectivos que idealizaste te parecerem incolores?
Reinventa essa energia interior,
Fragmenta o entusiasmo que há em ti e que por momentos descansou fora de tempo,
Descobre-te nesse descentralizar de percurso,
Porque a unidade de ti te procura e o descolorar das tuas dúvidas te provoca.
Priviligia cada capacidade tua, cada desejo que vislumbras,
As pistas, essas encontras no trajecto,
E as personagens caricaturam cada passo,
Porque a tarefa de desvendar a pintura é tua,
E o modelar de tonalidades teu,
Porque és tu o actor na peça em que o pintor decide cada traço,
És tu quem decide se descansas ou não fora de tempo.

domingo, novembro 09, 2008



Stalker de Andrei Tarkovsky (1979)
Género: Aventura / Mistério / Drama / Ficção Científica


Este é um daqueles filmes raros, geniais, capazes de elicitar em nós sensações nunca antes experienciadas. Muitos apelidam Tarkovsky de profético, por este idealizar os cenários fantasmagóricos e decrépitos da zona em redor do desastre de Chernobyl, 10 anos após o filme. O filme centra a sua narrativa na "Zone", tal como seria apelidada a área consumida pelo desastre nuclear, uma zona inóspita nos confins da União Soviética, maldita pelo Homem, encerrada por arame farpado e dispositivos militares, onde parecem ocorrer fenómenos fora do alcance de uma explicação lógica, após a suposta queda de um meteorito. 


Dentro de todo o mistério e horror que a "Zone" encerra, existe o "Stalker", aquele que atingiu, inexplicavelmente, o notável feito de regressar da área maldita, após nela ter entrado por diversas vezes - o único homem que a "Zone" parece querer poupar. Para este, a Zona é seu derradeiro local na Terra de paz interior, bem distante da miséria e sofrimento que o atinge na cidade onde vive - verdadeiro aforismo às condições sub-humanas vividas pelo povo russo. Apesar da sua decadência e aspecto sinistro, a Zona é o seu paraíso metafórico. Tarkovsky fora absolutamente brilhante em traduzir ao espectador, visualmente, o impacto interior que os dois locais lhe provocam. O propósito da vida do Stalker transformou-se em revelar a sua descoberta interior a outros homens, escolhidos por ele. Os que sente que estão preparados para o sentir. Esta não é apenas uma viagem no seu sentido literal estrito, física. É bem mais que isso. É uma autêntica jornada interior, reflexiva, um local interiormente idílico que serve de base à sua filosofia fascinante - a evolução da condição Humana.


Por todo o lado corre a crença que quem o acompanha na sua regular viagem parece conseguir realizar um desejo. Desta feita, a sua escolha recai em dois personagens intelectuais: um famoso escritor, cínico, que alega ter perdido toda a sua inspiração; e um físico, pragmático, que parece dar mais valor à moxila que carrega do que à viagem em si. Ao longo da trama vai-se atingindo o verdadeiro propósito que os levou a encetar esta perigosa viagem, através de sucessivas discussões verdadeiramente inteligentes entre dois intelectuais de áreas tão distintas, bem como, no final do filme, se estarão mentalmente preparados para uma decisão esmagadora que os iria mudar para sempre. 


"Que acreditem! Que riam das suas paixões.
Porque o que consideram paixão,
Na realidade não é energia espiritual
Mas sim fricção entre a alma e o mundo externo
(...)
Quando o Homem nasce, é fraco e flexível
Quando morre, é duro e insensível
Quando uma árvore cresce, é tenra e pliável
Mas, quando seca e dura, morre
Dureza e força são os companheiros da morte.
A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser.
Por isso, quem endurece, nunca vencerá."

"Sim, sou um piolho.
Nada fiz neste mundo, nem nada posso fazer.
Nem à minha mulher dei nada.
Não tenho amigos. (...)
Privaram-me de tudo lá, além do arame farpado.
Tudo o que tenho está aqui! Compreende?
Aqui na Zona!
A felicidade, a liberdade, a dignidade, tudo está aqui!"


Veredicto: 10/10

quinta-feira, novembro 06, 2008

Dados interessantes vieram a público, sobre um tema que habitualmente gera discussão entre indivíduos que por aqui geralmente gravitam: quanto recebem os jogadores de futebol? Quem recebe mais? Chupistas... Foda*** - geralmente é assim que se costuma terminar a conversa.

Fonte Futebolfinance, Ronaldo é o que aufere mais, 7.440.000 € ano, por Portugal, os portugueses João Moutinho e Bruno Alves, são os mais bem remunerados, ao contrário, do que é habitualmente proclamada que Nuno Gomes é dos mais bem pagos. No top ten, dos mais bem pagos na liga portuguesa, algumas surpresas, ou nem por isso: o Benfica coloca 5 jogadores, Suazo primeiro com 1.800.000 €, Reyes e Aimar com 1.320.000 €, Luisão 1.032.000 € e Katsouranis com uns miseráveis 912.000 €. O Porto coloca dois jogadores - e aqui está o gozo da notícia - Lucho e Cebola, cada um a ganhar 1.620.000 € ano - afinal o Cebola ate ganha mais que o Aimar e Reyes... malandro -, o resto é consultar o site acima citado.

Até parece anedota estes tipos ganharem esta enormidade de dinheiro, apenas mantendo o físico e dando uns pontapés na bola, enquanto há pessoas que trabalham mais de 8 horas por dia para ganharem um trigésimo dessas quantidades, com cargos e responsabilidades muito mais elevados e importantes para a sociedade, dando aquilo que outros não querem, não podem ou não sabem dar, sem nunca poderem aspirar a serem reconhecidos dessa forma, batalhando muitas vezes pela própria sobrevivência a pulso, nestes modelos de sociedade desiguais, desproporcionados e tremendamente injustos.

quarta-feira, novembro 05, 2008

They Change!!

Lá acabou por ganhar aquele que todos os europeus gostavam que ganhasse. (Tirando um punhado de elites de ideologia destra, da craveira de Lobo Xavier, Pacheco Pereira e, Luís Delgado).

Para nós, quase que parecia óbvia a escolha entre um destes dois: sujeito de cor - com tudo de simbólico que daí advém -, simpático, dialogante, inspirador, com talento para o discurso, de ideologias idênticas ao que entendemos com o que se aproxima do bom-senso e, um avozinho veterano de guerra, defensor das mais valorosas actividades bélicas, sobre tudo o que é árabe, apoiado por uma Miss mentecapta, fanática religiosa da igreja dos fins dos tempos, membra de uma associação que luta pelo direito a uma arma em cada lar, que mostrou intenção de entrar em guerra com a Rússia – caso fosse necessário -, e de continuar a procurar petróleo em tudo o que é sítio, mesmo que esses sítios sejam reservas naturais.

Parece fácil, mas para os americanos nada é fácil, pelo menos para 46% de americanos - não terá sido bem assim, a democracia americana tem as suas características muito próprias -, que depois de Bush ainda tiveram o desmazelo de votar em Mccain - Pallin nestas condições.

Sou daqueles que não acreditam que Obama mudará por completo a América e muito menos a ordem internacional imposta por esta há anos, mas mudará por certo a face dos EUA, com tudo o que isso representa em termos de política externa (Teremos brevemente uma visita a Cuba? Venezuela? Irão? Não me admirava...), acho também que dos dois em discussão será o que está melhor preparado para enfrentar a crise económica que os afecta e nos contagia, apesar de, não se ter ouvido de nenhum dos lados qualquer referência ao essencial – a maioria dos americanos continua a viver acima das suas possibilidades, mas isso será outra história. Alegremo-nos do essencial, com Obama teremos de certeza um mundo melhor, e quase tudo se afigurava como melhor, depois do lunáticos e medíocres Bush, Cheney e Condoleza do Arroz.

Bye, Bye Suckers!!

Fui

terça-feira, novembro 04, 2008


Que exemplo para todos nós! Porque o seu idealismo, a nobreza das suas convicções, venceram todas as barreiras, todos os obstáculos. 

E assim assistiremos (OsAmendoinsdoRicky estão já na posse de evidências conclusivas) ao corolar de um homem que realizou esse notável feito - o de vencer tudo e todos - com a força arrasadora e irresistível das suas palavras. Começando mesmo no seio do seu próprio partido, e terminando num país onde, tantas vezes, a diferença, sobretudo a diferença racial, é pautada com o ódio e o desprezo. Pudesse Martin Luther King ter assistido a este dia histórico! O dia em que os valores mais nobres, os direitos civis, a liberdade, se impuseram sobre o ódio e a guerra.

Parabéns Barack Obama. 
O Universo festeja de alegria.


Entretanto, muito longe, no rancho do John McCain....


Numa outra galáxia, José Sócrates sofre com as consequências para Portugal...

domingo, novembro 02, 2008



2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick (1968)
Género: Ficção Científica/Thriller/Mistério/Aventura



Este épico da ficção científica, realizado maravilhosamente por Stanley Kubrick, acabou por se tornar uma das maiores lendas de sempre da história do cinema.  Tomando por base a evolução do Homem, desde o evento inicial até a um futuro longínquo da exploração espacial, Kubrick apresenta as duas perspectivas da evolução temporal humana elicitando os seus pontos comuns. 

A utilização de cenas lânguidas, fotográficas, que acabam por constituir verdadeiras metáforas visuais, tornam a experiência de visualização um constante acto reflexivo, reforçado ainda pelo uso recorrente de peças sinfónicas, de conotação sinistra, operática ou espectacular (Strauss). Por outro lado, Kubrick foi exemplar na recriação do vazio sonoro do espaço, bem como da respiração ressonante do astronauta no seu fato espacial, tornando as longas cenas no espaço asfixiantes e assustadoramente realistas. Tudo isto assume uma notabilidade exímia, sobretudo se pensarmos que o filme fora feito antes sequer do Homem pisar a Lua, e de ainda hoje se manter incrivelmente actual e, em alguns aspectos mesmo, surpreendente.



As cenas são meticulosamente orquestradas para transmitir mensagens de cariz filosófico, desde a dicotomia da inteligência humana e inteligência artificial (sendo o computador HAL um dos mais perturbadores personagens da inteligência artificial alguma vez feitos, sem pensar ainda no quão influente e marcante terá sido na história do cinema), a existência de civilizações extraterrestres e a problemática da influência superior no curso evolutivo humano. 

Por todas estas razões, é fácil de perceber o quão substancial é esta película. Todos deveriam ter a oportunidade de admirá-la pelo menos uma vez na vida. 

Veredicto: 10/10