segunda-feira, julho 13, 2009


Ler, mais que ver 389x152


Unhas Negras de João da Silva Correia (1953)


Unhas negras é a obra prima de João da Silva Correia, escritor português do século XX. Eram conhecidos como unhas negras, negras dos vapores, corantes e ácidos manuseados para o fabrico dos chapéus, apesar de tudo não menos negras que as próprias vidas destes homens. Nesta obra são outurgadas as agruras e misérias dos operários da indústria da chapelaria do início do século XX, no atrasado início da industrialização portuguesa. Acima deste trabalho verdadeiramente desumano, com descrições a roçar à noção terrena de inferno (quais condenados envoltos em fornalhas ardentes), eleva-se ainda a injusteza de uma sociedade completamente desprovida de sentido humano e social. É neste cenário que encontramos os vários personagens-chave da obra, que personificam os dramas sociais destes homens: desde as condições precárias das habitações, as familias numerosas, os filhos famintos e doentes, a epidemia da tuberculose, até ao fatalismo do desamparo na velhice. Histórias baseadas na realidade, com alusão ao histórico episódio do "assalto" à Fábrica Nova, hoje Museu da Indústria da Chapelaria em S. João da Madeira, episódio trágico em que centenas de operários se revoltaram contra a maquinização da indústria e a eventual perda de postos de trabalho.

Com uma escrita complexa, João da Silva Correia é de facto um literato dotado, é notória a influência realista e descritiva de Camilo, Eça, Ferreira de Castro e Dostoievsky, a que o autor junta as sua forma engraçada de descrever as coisas, bem como expressionismos hilariantes da região de S. João da Madeira. Esta é a base para uma amálgama de histórias cruas e tocantes. Recordo com especial ternura o personagem Tomás, um rapazola desfigurado por uma doença óssea, mas que movia o mundo a tocar a sua concertina. Ou do seu pai Gonçalo Pimpão, no limiar das forças, na sua luta desumana para não perder o parco sustento. Ou do rapazito que ia levar a merenda ao pai e, faminto, via o pai comer sem nada poder tirar. Não esquecendo ainda o sonho da vida de Gervásio Baptista, de ir, veja-se, às festas do S. João em Braga... São histórias que João da Silva Correia assistiu, vidas mergulhadas num sofrimento mudo, partilhadas por um povo humilde, no limiar da sustentabilidade humana, que o autor quis homenagear. É o tributo-mor a todos estes seres humanos anónimos que perderam a vida no suor do trabalho, sem mais não ver da vida que a aldeia em que nasceram, uma terra que, inexplicavelmente, tanto amaram, e desse amor acabaria por nascer uma vila, e um concelho, e uma cidade. É S. João da Madeira.


"...mergulhando e tornando a mergulhar as mãos já escaldadas e de unhas negras calamitosas na água a ferver - faziam lembrar de certo modo painel de alminhas do purgatório, em que há braços contorcionados e expressões de súplicas alucinadas, parêntises de martírio e de agonia sem par, entre chamas impiedosas que purificam, pelo sofrimento, os raros eleitos da eterna bem-aventurança."


S. João da Madeira, hoje, a segunda maior cidade do distrito de Aveiro, com 22 mil habitantes. No início do século XX, S. João da Madeira era uma aldeia com cerca de 4000 habitantes, e pertencente a Oliveira de Azeméis. Os são-joanenses (ou sanjoanenses) eram (ainda muitos se hão-de recordar!) conhecidos como unhas negras, termo devido às unhas sujas dos operários das inúmeras fábricas de chapéus da aldeia. Foi a esta pujança industrial, bairrismo e empreendedorismo das suas gentes que se deveu a politicamente surpreendente emancipação municipal de 11 de Outubro de 1926. Hoje resta apenas uma fábrica de chapéus, a Fepsa, apesar de tudo produtora de quase um terço dos chapéus produzidos anualmente em todo o mundo!

3 comentários:

O Shihan disse...

Um escritor sanjoanense, com relatos de vidas de sanjoanenses, muitos deles nossos directos antepassados - as minhas duas avós trabalharam em chapelarias, um dos meus avôs era metalúrgico, o outro sapateiro, a ocupação mais usual por estas bandas, há 40 anos atrás. Vidas miseráveis e deprimentes, não muito distantes no tempo e espelho de um país atrasado, que se transformou mais nas últimas décadas, do que em todo o século anterior.

Viva Sjm! Bota Castro de Almeida.

Roberto disse...

SJM, uma terra musculada de espirito=)

Viva SJM

SEVE disse...

Não conhecia. Fiquei com muita curiosidade e vou tentar lê-lo.