sábado, maio 17, 2008

O céu está carregado.
Parece querer explodir.

Neste final de tarde de Outono, prostou-se absorto na ponte L., como costuma fazer, desde aquele evento. Os últimos raios de Sol, de uma ténue clareira do céu, abandonam-lhe a face, angular, polida, como que contemplando a dor que sentia. Ainda se conservam no exterior, tangendo de cor as pálidas fachadas das duas cidades, emprestando um fôlego de vida ao rio debaixo de si. Veículos amontoam-se por todo o lado, carcaças sujas de metal e plástico, penando vagarosamente por corredores intermináveis. Vultos anónimos agitam-se, indiferentes a tudo, como que sem rumo em labirintos sem fim.

Não somos quem somos. Esta é uma máquina implacável. Não somos quem somos... - Repetia, vezes sem conta, numa contemplação distante, etérea.

Se pudesse, uma lágrima ter-lhe-ia escorrido do magro rosto nesse preciso momento, imiscuindo -se na vermelhidão do rio. Mas um ataque febril corroeu-o sem mágoa. Laivos de negro mancharam o crepúsculo. A paisagem, tal como a vira, transformara-se num retrato estático, cinzento, manchado de poeira e de ecos moribundos marchando num ruído metálico, sujo, perturbador, cada vez mais intenso. O ar tornara-se tóxico, claustrofóbico, insuportável. O ruído começou a ecoar-lhe no cérebro, martelando-o num metrónome ensurdecedor, transformando-o num tumulto de descargas eléctricas. Abismava-se o colapso. Mitigava-se nesse transe espástico até que o seu olhar se fixa num cão moribundo que, assertivamente, percorria o outro lado da estrutura.

Não pode ser. Algo não está certo -
transpareceu do turbilhão de espasmos cerebrais, ao mesmo tempo que perscrutava o animal com uma curiosidade insaciável. Olhos fulminantes. Pele suada. Coração galopante. Um arrepio gélido soou-lhe na alma. Ele não pertence aqui. Ele sabe.

O bicho, com uma serenidade inescrutável, acabou por dirigir o olhar para o dele, fazendo um movimento lento com o pescoço. No momento em que se cruzaram, nada mais se opôs, dando azo a um silêncio sepulcral, como se o espaço e o tempo terminassem ali. Aquele olhar, aquele olhar! Reconheceu-o imediatamente. O terror invadiu-o. Era aquele olhar. Como se pudesse ainda ser salvo. Recordou aquele dia. Aquele olhar. Imergido numa agonia exasperante, o corpo cedeu. Tal como ele, o céu finalmente explodiu. Envolveram-se num uníssono prodigioso, como que numa sinfonia sobre-humana. Durante os longos minutos em que se abraçaram, parecia que tudo se havia concertado para que esse momento chegasse... De longe, a chuva parecia embalá-lo nos soluços, confundindo-se com ele.

(...)

Mais tarde, decidira passar na biblioteca. Já há muito que lá não ia, há muito que não desfolhava livro algum. Perdera o interesse em tudo, já só aguardava pelo fim. Por razões que o ultrapassam, decidira ir lá. Deambulou com o olhar pela secção habitual, captando o interesse num livro de cosmologia escrito pelo seu físico de eleição. Ao requisitá-lo, uma importante parte de si, tudo aquilo que já fora, já há muito confinada às profundezas do subconsciente, impregnou as derradeiras energias naquele momento. Nesse pequeno instante, transparecera uma aura inexplicável, como se por um décimo de segundo voltasse ao passado, ao que sempre fora, e que perdera naquele dia. O sorriso que muito tenuemente lhe esboçou, foi embebido de um sentimento inexcedível, como que transmitindo uma mensagem que ele próprio não foi capaz de traduzir.

Salva-me.

5 comentários:

Shihan disse...

Não posso deixar de confessar que estas palavras me arrepiaram.
Tirando o menos óbvio só a dizer: GENIAL!

aura disse...

Adorei esta viagem a um mundo verdadeiramente real e de certo modo ficcional, em que, por um momento, a alma se desliga do corpo e segue viagem por entre as frases e palavras.

Mariana disse...

Um verdadeiro sugar de palavras...
Belíssimo!

DaisyPostas disse...

Muito bom!

Rock disse...

tão profundo... Não se consegue ficar indeferente a este texto, é tão tocante...