terça-feira, maio 26, 2009

Ler, mais que ver 389x152

 Viagem ao Fim do Império de Martz Inura (2008)


O segundo romance do escritor português Martz Inura transporta-nos ao pesado passado do final da guerra colonial. Apesar de tão marcante para a história de Portugal, este é, efectivamente, um tema ainda pouco explorado, talvez por se constituir ainda como ferida bem viva e sangrante na alma de muitos portugueses, como reconhece o próprio autor. Inspirando-se nos títulos de Júlio Verne, a história do livro coloca-nos ao lado de Ivo Soares, um capitão miliciano, "feito à pressa", "em laboratório", para comandar um grupo operacional nos recônditos do enclave de Cabinda. 

Cidade de Cabinda
São estes dois anos, desterrado num isolamento profundo e num cenário de guerra em que à partida não acredita, o ponto de partida para o drama deste capitão inexperiente: a vida promissora que deixou na "metrópole", o peso esmagador das decisões, a responsabilidade pela vida de milhares de homens, os seus medos, pesadelos e conflitos interiores. Pode-se extrapolar do livro este sentimento global do que foi servir Portugal na guerra colonial, desde a desmotivação, as dificuldades, privações até aos receios e perigos que estes homens foram forçados para servir, o melhor que puderam, os interesses do país e durante tanto tempo. Provêm de todos os pontos do país, são mestres de variadíssimos ofícios, donos de personalidades e traquejos diferentes, mas juntos, formam esta massa caracterizadora da simplicidade do povo português, ali bem retratada no livro. Alguns aprenderam lá a ler, outros até a "comer de faca e garfo", retrato paradigma da situação de miséria do país. Apesar de tudo, apreende-se que a guerra abriu os horizontes a muitos daqueles homens, contribuindo para o grande êxodo emigracional. A obra, não obstante o pesado tema, é longe de ser lúgrube. O humor está bem presente ao longo da narrativa, surgindo de várias expressões engraçadas, episódios sórdidos, brincadeiras caricatas, ou até do português "arranhado" de alguns autócnes. A relação destes com os portugueses era, de resto, salvo excepções, plenamente harmoniosa, mesmo de sincera amizade. Muito do sucesso da missão deve-se, sabe bem Ivo Soares, ao estabelecer de amistosas relações com os habitantes locais, retratatos genuidade e filosofia de vida invejáveis. Efectivamente, a obra ressalva bem o facto de, verdadeiramente, não se ter vivido lá uma situação de guerra, mas sim de guerrilha (aquilo que hoje se designaria facilmente de terrorismo).


É um livro de guerra e de amor, um amor inevitável e inebriante, perigoso, pincelado até por certos indícios de tragédia. No entanto, mais que esta dualidade cativante, o autor percorre os mais importantes factos históricos e enriquece-os com uma dimensão psico-social. É notória a intenção de Martz Inura em vincar ali o "desmoronar de uma certa ideia de Portugal" com mais de 500 anos de existência, e o início de uma nova página para o país. Termina o romance de forma surpreendente e precisamente no eclodir e euforia do 25 de Abril de 1974. É um livro fictício, embora se saiba que muitos dos episódios ali relatados aconteceram mesmo, memórias vivas da experiência de Martz Inura nessa mesma guerra, e que aumentam sobremaneira a tensão da leitura. Não se sabe, até que ponto, este não será um livro auto-biográfico do autor. 

Todos estes atributos tornam "Viagem ao Fim do Império" uma jornada enriquecedora, sendo possível retirar dela interessantes ilações e, até, lições, a vários níveis, desse ainda período-tabu da história portuguesa. Contextualiza-o, dissecando-o sob várias dimensões humanas. Não terá o fulgor ou originalidade literária da obra anterior "Um Sonho Secular", o próprio autor reconhece que esta obra "pouco ou nada acrescenta à literatura portuguesa", mas contém o talento desta escrita fluída, cativante e sonoramente rica, imagens de marca de Martz Inura, e que lhe valeram, com esta obra, o prémio literário João da Silva Correia.

6 comentários:

Roberto disse...

O Nimpo e Shihan, voces lem estes livros todos? Ou e so reviews k lem? E k se lerem isto tudo, sinto-me mesmo inculto e um verdadeiro arrumador de carros a vossa beira....

Eu demoro prai 3 meses a ler um livro ...E claro k nao e todos os dias, mas mesmo assim....

Aconselhovos a lerem a Biblia Jeova....e depois fazerem uma review...

Beijinhos

O Shihan disse...

Roberto, a nossa verdadeira ventura é sermos uns miseráveis ociosos com uma vida desinteressantíssima, uns indolentes repugnantes na vida profissional e uns turrões ascetas com uma vida social eclipsada, como bem sabes.

Para além disso lemos reviews na MagazineReview e vemos o DiscoveryChannel ao almoço e ao jantar, todos os dias. A bíblia dos Jeovás está na lista, logo a seguir ao almanaque columbófilo de Torre de Moncorvo. E sim, és um verdadeiro arrumador de carros, principalmente quando andas com aquelas tuas calças todas rotas.

O Shihan disse...

Ah! Não comentei o dito, porque ainda não tive tempo de o ler. Fica para a próxima...

Nimpo disse...

Por acaso o Eucinéfilo, numa das suas inúmeras investidas autodidactas pelo tema religião/ateísmo, penso já ter tido a oportunidade de ler a bíblia jeová, se não essa sei que leu a dos mormons, tendo ficado bastante surpreendido com tantas barbaridades por linha quadrada.

Mas bom, estamos ao fugir ao tema em questão.

Repito para o irmão Bertinho que tudo o que publicamos, ainda que valha pouco mais que esterco de omnívoro (pelo menos tem o atributo de não emanar um cheiro tão desagradável), é tudo completamente original, resultando da nossa análise pessoal.

É de facto um prazer ler. Aprendem-se hábitos antigos e novas ideias, novas filosofias. Aprende-se a falar melhor, novos termos, novas formas de nos exprimirmos. Coloca-nos a reflectir sobre diversas dimensões humanas e conflitos interiores esmagadores... Enriquece o saber, torna-nos mais cultos e criativos. Bastam umas páginazinhas por dia, para o dia parecer ser muito mais rico e preenchido! Tens que experimentar mais pois vais gostar tanto como nós, como Einstein ou como outros tantos grandes génios da ciência que nunca esconderam o fascínio pela arte, meu ilustre companheiro de vida...

Roberto disse...

Confesso k fikei um pouco tonto ao ler as respostas:p A minha pergunta era simples e as respostas foram de uma complexidade tremenda....Keep it simple....Ja ouviram isto em algum lado?

De kualker maneira gostei das respostas, como sempre mt rekintadas....tem a sua piada....da certo gozo de ler....faz distrair e ate sentir o "alcool" passar pelas veias....E engracado, continuem...pk no fundo...de uma maneira divertida...tornam-se voces mais cultos e os restantes leitores tambem...

Beijinhus

O Shihan disse...

Quem sabe se no futuro não teremos um digno sucessor de Martz Inura, assim se continue com o gosto pelo saber. Roberto não tens nada de agradecer, de Doutores com 3, 5 anos de universidade que pouco sabem e do que sabem, sabem-no pelos euros que podem ter, está o mundo cheio.

Há quem prefira ver tv, as telenoves da Tvi, ou o Scofield, beber cerveja ou beber vinho, ler ou ir ao teatro, estar de barriga para o ar em casa ou ir à biblioteca, ao cinema. Tudo diferentes formas de ocupar o seu tempo, todas muito respeitáveis, mas umas aparentam ser mais pretensiosas que outras, principalmente, quando não são reconhecidamente da maioria. Paciência.