domingo, janeiro 11, 2009

Citizen Kane de Orson Welles (1941)
Género: Drama / Mistério


Considerado por muitas listas de críticos de cinema como o melhor filme de todos os tempos, Citizen Kane é um filme histórico e inventivo. Sendo director e actor principal no mesmo filme, o noviço Orson Welles desempenhou ambos com particular mestria. No campo da direcção e realização, destacou-se não só pela originalidade com que a narrativa fora descrita, começando-a precisamente pelo seu fim misterioso (a morte do persnagem principal), utilizando flashbacks; mas também pelos planos e perspectivas diferentes e inovadores para a altura, aspectos estes que iriam influenciar a história do cinema daí em diante.

No campo da representação, Orson Welles interpretou de forma bastante convincente o personagem da história em várias etapas da sua vida, Charles Foster Kane, inspirado na história real do magnata americano William Randolph Hearst. A história desde magnata é decifrada desde a sua humilde infância, abruptamente terminada ao receber uma avultada herança, até ao seu apogeu social como director do jornal The New York Journal. Dirigindo-o quase por mero passatempo e brincadeira, acabaria por transformá-lo num dos primeiros diários sensacionalistas, com uma crítica corrosiva à corrupção e sociedade nem sempre fundamentadas, tornando Kane (ou Hearst) num dos maiores manipuladores da sociedade, um homem de um esmagador poder social, capaz de eleger ou demitir presidentes, de iniciar ou vetar guerras (falo, particularmente, da guerra Hispano-Americana de 1898), tendo mesmo chegado muito perto da nomeação a candidato presidencial.


Apesar de não ocultar vários aspectos positivos da personagem, o carácter frívolo, arrebatado e sem escrúpulos do personagem principal acabou por não agradar a William Randolph Hearst, ainda vivo aquando do término do filme, tendo feito tudo ao seu alcance para que este fosse destruído antes da sua apresentação. Muitos dizem, no entanto, que a perseverança de Hearst na destruição do filme não era tanto devida ao retrato da sua personagem, mas sim ao da sua mulher, a cantora/actriz Susan Alexander. Efectivamente, anos mais tarde, Orson Welles acabaria por revelar que o seu maior lamento no filme, a coisa que realmente se arrependeu, foi o de ter passado uma imagem enviezada de Susan Alexander, no filme retratada como uma cantora ébria, sem confiança ou talento, acabando por prejudicar a sua carreira.

Apesar de não o ter conseguido totalmente, Hearst acabou por comprometer, na época, o sucesso de Citizen Kane e Orson Welles continuou no anonimato para a maior parte da sociedade. Ironicamente, esta sua disputa acabaria por, ao longo dos anos, cimentar a importância e divulgação do filme, e o seu nome acabaria por ficar intrinsecamente ligado a Citizen Kane. 

Algo que todos carecem de compreensão fora a última palavra proferida por Kane, no leito da sua morte, envolta em mistério e num sentimento profundo - Rosebud. O significado desta palavra, que parece encerrar nela algo de profundo e perturbador, é o ponto de partida para uma busca existencial interminável e aparentemente infrutífera do início ao fim do filme. A sua descoberta é, pois, o principal propósito do filme. O seu significado profundo é enaltecido em toda a subtileza com que é revelado, transformando Citizen Kane num filme intemporal, em todos os aspectos genial!


"O Sr. Kane foi um homem que teve tudo o que quis e que depois perdeu tudo. Talvez Rosebud fosse algo que ele não pôde obter, ou algo que perdeu... De qualquer maneira, não poderia explicar nada. Não penso que qualquer palavra possa explicar a vida de um homem. Não, talvez Rosebud seja apenas... uma peça no puzzle... uma peça perdida."

2 comentários:

O Shihan disse...

Aí está um clássico e uma masterpiece que não deixa ninguém indiferente; Desde cenas, performances, narrativas, tudo é sublimemente muito bom, alia a isso a virtude da inovação experimental para a época (em fotografia, edição e som), dirigido, interpretado e produzido pelo mesmo homem - Orson Welles que na altura tinha a idade de 25 anos!!

Tem ainda a particularidade de prender o espectador do primeiro ao último minuto, mesmo para aqueles de mente mais ociosa nestas andanças.

Raquel disse...

Por alguma coisa este é considerado o melhor filme de sempre.