sábado, fevereiro 28, 2009


Por quem os sinos dobram
de Ernest Hemingway (1940)



O contexto.



Década de 30 do século XX, guerra civil espanhola. Um confronto terrível que contribuiu para o acumular de tensões políticas esquerda-direita que acabariam por desencadear a 2ª Guerra Mundial.  De um lado, os Republicanos, no poder há poucos anos após o fim da Monarquia absolutista e em dificuldades político-económico-sociais resultantes do crash económico 1929, apoiados pelo México e União Soviética; do outro lado, os Nacionalistas, apoiados pela Alemanha, Itália e por Portugal. Um pequeno golpe de estado militar à República no poder que acabaria por gerar uma chaga de proporções surreais:  mais de 500.000 mil mortos e a instituição, durante décadas, do regime opressivo extrema-direita de Franco. Este confronto sanguinário vincaria o estilo de dois dos maiores artistas de sempre, Picasso e Salvador Dali.


Premonição de Salvador Dali.


Batalha de Guernica, de Pablo Picasso.

O homem.

A guerra civil espanhola originou uma atenção mediática sem precedentes até à altura. Observadores de todo o mundo dirigiram-se ao local para reportarem as novidades, União Soviética, EUA, Alemanha e Itália testavam novos aviões, armas e maquinarias de guerra - todos os olhos do mundo estavam virados para a Península Ibérica. Como se a península fosse cobaia de uma medição de forças internacional. É neste contexto que Ernest Hemingway se tornou grande conhecedor do conflito, fruto de estadia vários anos em Espanha como jornalista/observador americano.



O livro.

A estadia vários anos em território espanhol associado à personalidade de Hemingway, levaram-no a conhecer profundamente o carácter do povo espanhol, gerando nele uma marca de profunda admiração que muitas vezes não escondeu. A história coloca-nos ao lado de um oficial americano, Robert Jordan, designado para a missão de fazer explodir uma ponte em pleno território nacionalista (fascista). Aqui tem que estabelecer contactos com os guerrilheiros locais, um grupo liderado por uma mulher de carácter vincado, Pilar, para o ajudarem na missão. 

A vinda de Jordan é um pronúncio do fim da harmonia que esse pequeno grupo de rebeldes vive, no aparente anonimato, nos meandros de uma gruta em pleno território fascista. O americano acaba por descobrir neste grupo vários sentimentos característicos do povo pensinsular, fazendo-o sentir mais vivo - desde a amizade, a alegria e o humor na adversidade, até ao amor. O carácter amistoso e ao mesmo irascível e precipitado do povo espanhol é caracterizado de forma brilhante na escrita fluente e cheia de expressões locais cómicas. 

O livro lida fundamentalmente com o tema morte e o valor da vida humana na guerra. Desde o momento em que aceita a missão que Jordan sabe que não sobreviverá a ela. Uma missão que nem sabe sequer qual o seu real propósito, se não será apenas uma jogada de diversão orquestrada por um general aborrecido e sem escrúpulos - se a sua vida valerá a missão que aceita, qual peão de um jogo de xadrez. Do grupo que o acolhe nasce também esta convicção, essencialmente no casal que o lidera, Pilar e Pablo, que nada mais será como dantes. Eles bem sabem que estão prestes a abdicar de tudo, da harmonia sigilosa em que vivem em terreno inimigo, em prol deste invasor americano que acolhem e a quem carinhosamente apelidam de Inglés. Apesar disso, guardam esse prenúncio interiormente, e aceitam-no como um deles: esse Inglés que traz consigo um mau augouro, a morte e a destruição de tudo o que amam e construíram. Aceitam-no como um irmão, como um destino inevitável, um sacrifício em prol da República, a República que nunca viria a ganhar...

O romance toca também no tema suicídio, tal como em quase todas as suas obras. Hemingway indicia aqui a sua própria depressão que, juntamente com outros problemas de saúde, o levariam a por termo à própria vida em 1961. A menção ao suicídio do pai do personagem Robert Jordan, e o lamento deste em considerar tal acto cobarde e indigno, perguntando mesmo a outro personagem se pensaria o mesmo, traduz talvez os próprios pensamentos e conflito interior de Hemingway em relação ao suicídio do próprio pai. A conexão do personagem Robert Jordan a Hemingway é, de resto, muito forte, e Hemingway acaba por premeditar na obra o seu próprio desfecho.

Para o personagem Robert Jordan esses serão, na visão dele, os 4 últimos dias da sua vida. Os 4 últimos dias onde poderá sonhar, onde poderá amar, onde poderá ser humano - nascer outra vez! Para ele, toda a sua vida será vivida ali, naquele local e com aquelas pessoas que, incrivelmente, tão acolhedoramente o receberam. Esta é a maior homenagem ao povo ibérico, que Hemingway tanto admirou.

"Existe apenas o agora, e se o agora é apenas 2 dias, então 2 dias é a tua vida e tudo será em proporção. Isto é como se vive uma vida em 2 dias. E se parares de te queixar e perguntar sobre aquilo que nunca poderás ter, terás uma boa vida."

5 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro amigo ADOREI O LIVRO, SIMPLESMENTE FENOMENAL e de uma profundidade tremenda.

E daquele livros que nao conseguimos simplemente degrudar, todos os dias qd vou pa cama penso nele, e impossivel nao o fazer. precipalmente qd desligo a luz e me viro po lado pa finalmente descanasar do meu longo dia, olho para o chao mesmo no final da cama e agradeço ao livro por existir e fazer um tao bom trabalho a calçar a minha cama, dado ke tenho um grande desnivel no chao.

O Shihan disse...

Muito elucidativo! Gostei da contextualização, um clássico para a lista.

Anónimo lol

J disse...

Não conhecia o livro, mas após esta descrição fantástica passa a estar já na lista de livros à ler.

Obrigada Nimpo :)

J

J disse...

Não conhecia o livro, mas após esta descrição fantástica passa a estar já na lista de livros à ler.

Obrigada Nimpo :)

J

Mariana disse...

Belíssima contextualização em grande review!